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Descubra histórias maravilhosas da vida quotidiana em África, de uma das organizações que promove Generais general João de Matos e João Batista de Matos

As histórias reais de viajar para a África, da cultura e da vida selvagem através de uma parceria promovida por João Batista de Matos

Os últimos quarto meses do ano tinham criado alguma expectativa, já que o programa de reprodução da palanca no PN Cangandala entrou numa nova e mais entusiasmante etapa. Afinal de contas, e em resultado da bem sucedida operação de capturas que decorreu em Julho e Agosto, tínhamos agora dois grupos reprodutores em dois santuários vedados. Apesar das nossas elevadas expectativas, receio que as coisas na Cangandala nunca decorram de forma suave, e mais uma vez fomos forçados a reagir a eventos inesperados e a mudar o nosso rumo. Na melhor das hipóteses estes últmos meses tiveram um sabor agri-doce.

O principal culpado pelas nossas mais recentes dores de cabeça foi o Ivan "o Terrível", aquele macho com tanto de impressionante como agressivo que tínhamos recentemente trazido da Reserva do Luando. Ele tinha sido libertado no recinto de 2,800 ha com seis jovens fêmeas e um jovem macho de 2 anos de idade (Miguel), e dentro de uma semana já se tinham todos encontrado. A manada de híbridos estava também neste recinto mas as duas manadas nunca se misturaram. Os dois machos foram vistos juntos algumas vezes, mas na segunda semana a natureza irascível do Ivan tornu-se evidente quando ele perseguiu e matou o Miguel sem piedade. O jovem macho foi perfurado várias vezes e pelo menos duas vezs no peito... deve ter sido um encontro rápido e brutal. Este acontecimento foi obviamente uma grande decepção para todos, até porque tínhamos julgado que o jovem macho era ainda demasiado tenrinho para ser visto como uma ameaça. Machos territoriais são geralmente criaturas intolerantes, frequentemente lutando com competidores, e mortes derivadas destas escaramuças não são raras. Talvez o Miguel tivesse sido tolerado por um outro macho... mas não por Ivan o Terrível. De qualquer das formas, e por muito cruel que isto possa parecer, este jovem macho era o animal menos importante e ti nha sido trazido apenas como plano B, um macho de substituição no caso de alguma coisa acontecer aos machos mais velhos e dominantes. A perda do Miguel não é uma crise para o programa de reprodução.

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Mas o Ivan ainda não estava satisfeito, e um par de semanas depois rebentou a vedação à força, abrindo um enorme buraco e escapando do santuário junto do seu limite sul. Levou com ele duas das fêmeas de 1 ano, deixando para trás a terceira fêmea de 1 ano e as três de 2 anos. Porque é que apenas duas das seis fêmeas o acompanharam permanece um mistério, apesar de que é tentador especular que possivelmente as outras não aprovaram os seus modos. A fuga destes animais foi naturalmente visto como mais um golpe nos nossos planos. Especialmente porque logo assumimos que o Ivan daria início a uma migração suicida para sul em busca do seu antigo território no Luando, ou iria pelo menos andar perdido à deriva de forma imprevisível e atravessando as fronteiras do parque de vez com as duas jovens fêmeas. Mas logo quando tínhamos dado por certos estes cenários desoladores, foi quando o Ivan resolveu surpreender-nos pela positiva! O facto é que, uma vez livre das grilhetas do semi-cativeiro, O Ivan decidiu acalmar, estabelecendo o seu novo território em zona contígua ao santuário. Ao longo dos últimos meses temos temos seguido o Ivan através de sinal rádio e ele parece realmente ter-se baseado numa área fixa, sempre a poucos quilómetros da linha de vedação. Infelizmente a sua natureza esquiva tem-no mantido fora de vista, e também decidimos que não seria boa ideia pressioná-lo muito.

Muito embora não tenhamos podido confirmar, tudo indica que o Ivan tem mantido as duas meninas com ele. Igualmente importante, dá-se o caso de que o local onde se estabeleceu o novo território coincide precisamente com a zona habitual de presença da Joana, a velha fêmea pura que tinha escapado por debaixo da vedação em 2009, e que desde essa altura permanece solitária. Não posso deixar de pensar que se trata de mais que simples coincidência que o Ivan se tenha estabelecido junto da Joana... por esta altura já devem ter-se encontrado certamente...e talvez tenha sido a sua presença o que levou Ivan a rebentar a vedação?! Agora, este seria mais um louco capítulo nesta longa estória. Se acabar por ser a Joana a manter o Ivan e as meninas, formando uma nova manada reprodutora, mesmo fora da relativa segurança dos santuários. Pode ainda revelar-se um epílogo melhor e mais natural que o projectado inicialmente!

Considerando o que aconteceu com o Ivan, decidimos abrir imediatamente o santuário menor de 400 ha, ficando assim com apenas um grande recinto vedado com 3,200 ha. Não faria sentido continuar a manter o primeiro núcleo reprodutor contido numa área sub-óptima, quando já não havia segundo macho territorial. Para mais, tínhamos agora um grupo de quatro jovens fêmeas puras a precisarem desesperadamente de uma companhia masculina, de preferência um macho gentil como o nosso velho Duarte.

Entretanto, o macho híbrido castrado "Scar" tinha-se juntado e sido aceite pela manada pura. Não propriamente como "one of the girls", mas também não propriamente como um garanhão... bem, não sei bem o que deveríamos esperar de um híbrido castrado, mas este certamente que parece e comporta-se de forma peculiar! Tornou-se num indivíduo bastante nervoso e hesitante (estava tentado a dizer que aparenta por vezes ser um bocado histérico...), mas parece ser inofensivo.

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Por vezes vemo-lo a correr numa curta perseguição atrás de uma fêmea prenha ou sub-dominante, como se procurasse estabelecer uma posição dentro da hierarquia feminina. Mas mais frequentemente ele segue o Duarte por todo o lado, e gosta de subir ao topo dos grandes morros de salalé (termiteiras) como se montasse guarda enquanto a manada pasta pacificamente. É como se o Scar quisesse ser o assistente particular do Duarte, mas quase sempre é completamente ignorado pelo velho macho, que certamente não vê justificação para gastar energias num confronto com um híbrido capado. Em raras ocasiões, observámos o Scar aproximando-se amaricadamente do macho um pouco mais que o devido, mas quando isso aconteceu este último, nas sua típica maneira descontraída, simplesmente baixou a cabeça mostrando a ponta dos seus longos cornos, e o Scar imediatamente saltou e fugiu para uma distância mais segura.

Como já era esperado, e uma vez removida a vedação separadora, não levou muito tempo até que a manada reprodutora aproveitasse devidamente o maior santuário, e o grupo dos híbridos foi rapidamente absorvido. Afinal de contas, esta área era já bem conhecida das velhas fêmeas, e os híbridos eram também a sua própria descendência. Também não foi surpresa verificar que as quatro jovens fêmeas do Luando não foram aceites na manada. As palancas vivem em sistemas matriarcais, nos quais as manadas são lideradas por fêmeas dominantes, geralmente as mais velhas, e fêmeas "estranhas" são raramente aceites no grupo. Ironicamente, as nossas velhas fêmeas sentem-se mais confortáveis na companhia de um punhado de aberrantes e feios híbridos, do que junto destas novas e bonitas palanquinhas do Luando! Em relação aos híbridos, não interessa o que é que as pessoas dizem, eles sempre serão lindos para as mamãs deles!

De qualquer das formas, o facto de não se terem juntado todos os animais numa única grande manada não é problemático, e poderá até ser irrelevante. Tudo o que precisamos é que o macho, de vez em quando, possa passar algum tempo "útil" com as meninas. E nem de propósito, o Duarte foi já visto fora da manada grande e juntando-se às outras quatro fêmeas.

Em relação à performance reprodutora da manada original, ainda permanence muito abaixo dos mínimos exigíveis, e não temos novas crias confirmadas para anunciar. Por outro lado, e agora que entrámos no terceiro ano, um nítido padrão parece emergir. Das sete fêmeas, apenas três estão a reproduzir. A estrela da companhia tem sido a mais velha (e também dominante), a Neusa, que seguindo o ciclo natural de reprodução da palanca negra gigante nos deu duas crias em dois meses de Maio sucessivos (2010 e 2011, embora infelizmente em ambos os casos as crias tenham sido do sexo masculino). E mais uma vez em Setembro/Outubro últimos ela estava novamente no cio, já que pudémos testemunhar o Duarte excitado cheirando a sua urina e até fazendo uma tímida tentativa para a montar. Esperemos que este esforço não seja demasiado para ela, até porque parecia agora um pouco mais frágil e foi vista a coxear.

Depois temos duas outras fêmeas, Luísa e Teresa, que também têm reproduzido se bem que seis meses desfasadas do ciclo normal. Entraram no cio tardiamente reflectindo-se em gravidez fora de época. Isto não é necessariamente grave, desde que se mantenham a reproduzir. De facto, ambas as fêmeas estavam "muito" prenhes em 2010, embora apenas a Luísa tenha produzido uma cria. Assumimos que a Teresa deve ter perdido a cria pouco depois desta nascer. Já em 2011, ambas se encontravam obviamente prenhes em Outubro e Novembro, e em Dezembro último a Luísa tinha abandonado a manada (presumivelmente estaria a parir), ao passo que a Teresa mostrava-se bastante nervosa e com um úbere notavelmente inchado, pelo que esperamos que esta também já tenha parido.

  • Tudo isto seria muito aceitável, não fora o facto das restantes quatro fêmeas não terem ainda mostrado qualquer sinal claro de gravidez, muito embora pareçam bem alimentadas, saudáveis e tranquilas. Assim, e pelo segundo ano consecutivo, tivemos uma só fêmea reprodutora e no tempo certo, tivemos depois duas fêmeas a reproduzir fora de ciclo, e quatro outras sem qualquer sinal de reprodução! Isto não pode ser coincidência, e parece-me claro agora que não deveremos culpar o macho nem quaisquer outros fenómenos exógenos. Em circunstâncias normais, a reprodução das fêmeas de palanca negra gigante deveria ser bastante bem sincronizada (com a maioria das fêmeas a parirem quase simultaneamente, por voltas de Maio/ Junho), e a taxa de fertilidade deveria rondar pelo menos 90%, pelo que algo está errado.
  • Acreditamos que a explicação para esta anormal taxa reprodutora, é quase de certeza o resultado de uma década de produção de híbridos e ausência frequente de reprodução. Nem uma só das fêmeas teve aquilo a que podemos chamar de um historial reprodutivo saudável, e as consequências tornam-se agora dolorosamente óbvias, com mais de metade das fêmeas a nem sequer entrarem em ciclo de cio.
  • Acreditamos que a explicação para esta anormal taxa reprodutora, é quase de certeza o resultado de uma década de produção de híbridos e ausência frequente de reprodução. Nem uma só das fêmeas teve aquilo a que podemos chamar de um historial reprodutivo saudável, e as consequências tornam-se agora dolorosamente óbvias, com mais de metade das fêmeas a nem sequer entrarem em ciclo de cio.

Finalmente, devo referir que o ano de 2011 terminou da forma mais trágica, quando inesperadamente o nosso querido amigo Kalunga Lima, faleceu. Ele era um notável realizador de cinema e fotógrafo que até estava a finalizar o seu documentário sobre o projecto da palanca. Tínhamos feito várias expedições juntos no mato, na Cangandala e Luando, e sinto-me privelegiado por ter partilhado eses momentos com o Kalunga. Se eu perdi um grande e verdadeiro amigo, a palanca negra giante perdeu certamente um dos seus mais entusiásticos e relevantes apoiantes. E o país perdeu, simplesmente, o melhor profissional no seu ramo, alguém que não poderá ser substituído tão cedo.

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